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Mania de qualificar as pessoas? Ou seria preconceito?

Por estes dias, está ocorrendo aquele evento famosíssimo de moda.

Daí, lê-se as notícias sobre os chiques, os famosos, os ricos, os poderosos e as figuras que desfilam.

E a gente começa a ler coisas como: “Fulana, transexual, irá desfilar pela grife tal…”, ou “Sicrano, astro de H, trouxe a família..”, e coisas do gênero. E em muitos outros comentários, percebe-se, lá no fundinho, aquele preconceito velado, aquela coisa que as palavras, mesmo bem escolhidas, deixam à mostra.

Que me importa se a Fulana é transexual, bi, tri, homo? Ela está aqui prá desfilar, certo? Desfila bem? Então porque simplesmente não falar da forma como ela desfila, de como apresenta uma roupa? Por que dar a ela a qualificação sexual? Isso fgaz diferença na qualidade do seu trabalho?

Estou me atendo neste post mais a qualificação sexual que as pessoas impõem a outras. Mas isso se aplica a muitas situações. Muitas vezes uma pessoa deixa de ser valorizada pelo que faz, pelo que pensa, pelo que é. Tudo em função de um título que lhe é dado para descrevê-la.

Não estou falando aqui de profissões/ocupações. Se alguém é bibliotecário, fisioterapeuta, juíz, gari, motorista, isto é outra coisa.

Prá mim, as pessoas são o que são. E ponto. Sem titulos desnecessários…

4000 km prá que mesmo?

Embora tenha um quê de surreal, esta história aconteceu de fato.

No dia das mães de 1993, recém chegados a uma cidade no oeste de Santa Catarina, fomos convidados a almoçar na casa de um colega de trabalho a quem ainda não havíamos sido apresentados, visto que ele havia chegado de férias naquele fim de semana.

Fiz um prato, que não lembro qual (porque não gosto de chegar na casa de alguém de mãos vazias), e fomos ao bendito almoço. Em lá chegando, fomos recebidos muito bem pela dona da casa. Porém seu marido, mostrava-se extremamente irritado. Sabe quando fica um clima meio estranho, um mal estar geral? Pois bem, este era o clima.

Com o tempo passando, e depois de uma boa quantidade de vinho e cerveja, o anfitrião começou a falar. E falou muito.

O motivo de tanta irritação? Bem, meu marido é cearense. E o rapaz tinha acabado de chegar de onde? Do Ceará. E começou a explicação.

Ele estava deveras irritado, pois, ao chegar a Fortaleza, ele não tinha conseguido achar uma churrascaria decente prá comer um churrasco bem gordo. Eu juro. Eu quase caí da cadeira. Faltou pouco. E não me contive. (e por isso passamos quase 3 anos trabalhando juntos sem nos tolerarmos muito).

Perguntei prá ele qual era o sentido de alguém se dispor a viajar quase 4000 km de ônibus (excursão), ir prá uma cidade litorânea, em que o forte gastronômico é frutos do mar, e querer comer somente churrasco gordo? Como assim? Onde estava a lógica disto? Seria como um cearense vir prá cá e pedir prá comer somente lagostas maravilhosas como as de lá, que aqui não tem mesmo. (sou daqui e afirmo isso).

Eu ainda argumentei com ele que em Fortaleza havia muita churrascaria boa, nós mesmos conhecíamos várias. E ele nos contra-argumentou que até tinha, mas as carnes não eram gordas o suficiente.

Realmente não entendo como alguém passa tanto tempo na estrada, e quando chega ao seu destino, ao invés de procurar conhecer os costumes, cores e sabores do local que está visitando, não aceita se desapegar do que deixou em casa. Francamente, viajar tanto prá comer o que como em casa? E ainda falando mal do local visitado?

Então prá que, hein? Que fique em casa, não atrapalhe os outros (porque ele passou a viagem toda enfezado), economize o dinheiro da viagem, e continue na sua ignorância cultural.

mini churrasquinho de inverno. em 2010.

Ps.: esta foto aí de cima é de um churrasquinho feito num dia super frio, e é só prá dar uma vontadezinha em todo vocês.

Aquelas duas fotocópias

Estava conversando com meu marido sobre pequenos gestos e me lembrei de uma situação que passei há uns quatro ou cinco anos, lá na papelaria.

Naquele dia, o primeiro cliente que entrou na loja foi um rapaz. Talvez uns 25, 26 anos. Após desejar-lhe um bom dia, ele retribuiu meu cumprimento e perguntou, com um olhar muito, mas muito suplicante mesmo, se eu tiraria 2 fotocópias da certidão de nascimento de suas filhas. É que ele tinha conseguido um trabalho. Deveria começar naquele dia. Mas precisava da certidão das meninas prá apresentar ao novo empregador. E ele me explicou que, se não apresentasse as certidões, ele não poderia trabalhar, porém, se pagasse pelas cópias, as meninas não comeriam pão naquele dia. (e me pareceu que aquele seria o único alimento do dia prá elas).

Sinceramente, ele não precisaria ter me justificado nada. Só pela forma como me pediu as cópias, eu já as tiraria sem cobrar. Mas ele fez questão de explicar, e me disse: “moça, quando receber meu primeiro salário, passo aqui prá lhe pagar, faço questão”.

Naturalmente fiz as cópias, ele me agradeceu muito e saiu. Passou o dia, a semana, o mês.

Eu nem me lembrava mais do fato, e eis que entra na loja um rapaz com um olhar feliz. Sabe quando você acha que conhece a pessoa, mas não sabe de onde? Foi isso que senti. Aí ele falou: “Lembra de mim? A senhora fez 2 fotocópias da certidão de nascimento de minhas filhas, há um mes. Hoje recebi o pagamento, vim pagar. E me entregou uma moeda de R$ 0,25”. (na época, a cópia era R$ 0,10, cada).

Sabe quando você perde o chão? Ele voltou prá me pagar 20 centavos. E não queria o troco. Embora eu tentasse convencê-lo do contrário, ele pagou. E mais, no dia seguinte, foi levar-me um vasinho com uma plantinha que sua esposa tinha preparado especialmente prá mim.

Foi uma emoção tão grande, que a sinto até hoje.

Vez por outra o rapaz passa na frente da loja e quando me vê, entra e conversa um pouquinho. Me fala sobre as meninas, sobre a esposa, me fala da casinha que está construindo.

E me agradece sempre pelas duas fotocópias.

R$ 0,20 que mudaram e, talvez, salvaram quatro vidas.

Simples assim.

R$ 0,20.