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Colorindo o passado. Minha caixa de lápis de cor.

Quando eu estudava, lá bem longe no tempo, na minha época do primário e ginásio, que hoje se chama primeiro grau, as coisas eram meio difíceis lá em casa.

Oito filhos prá criar, meu pai doente, e minha mãe dando conta de tudo sozinha.

Eu sempre estudei em colégio particular. Mas não porque tivesse dinheiro, não. Era porque meu pai dava aulas (era o que elepodia fazer). Aí, parte do pagamento era em bolsas para os filhos.

Dá de imaginar que não era muito fácil quando a gente precisava de material escolar, né? Nós sempre tinhamos tudo certinho, mas sempre na medida do estritamente necessário.

Não me importei nem um pouco com as coisas sempre contadas, acho até que isto me ajudou a dar valor a cada coisa conquistada.

Mas havia uma coisa que me deixava diferente, digamos assim.

Os lápis de cor. Mais específicamente, uma cor de lápis.

Um verde água, meio azul, sei lá.

Minhas colegas sempre me emprestavam, mas eu desejava ter um lápis só prá mim. Eu sabia que naquele momento seria impossível. Mas guardei o desejo, bem lá no fundinho do coração.

Depois vieram meus filhos.

Um a um tendo os materiais apropriados, e, quando possível, conforme desejassem, desde que sem exageros.

E eu mantinha meu desejo de criança latente. Esperando. Mansinho.

Até o dia em que abri minha loja. Uma papelaria. Pequeninha no começo, mas que, com bastante trabalho, já passou pelo período mais difícil, segundo as estatísticas.

Na minha primeira compra prá loja, caixas de lápis de cor. E, dentre elas, a minha. Aquela que seria única e exclusivamente minha. Com um lápis inteirinho meu.

Após abrir a a caixa com o material comprado, conferido e arrumado nas estantes, o momento chegou.

Eu tremia quando peguei aquela que seria a realização de um desejo.

A minha caixa de lápis de cor, com o meu muito sonhado lápis verde água, ou azul.

Até hoje mantenho a caixa inteirinha. Ninguém mexe nela.

Mas muitas vezes me pego abrindo-a, e riscando pequenos pedaços de papel com aquele meu lápis.

Os lápis das outras cores estão lá. Mas não mexo neles, somente no meu verdinho, ou azulzinho. E depois ele volta prá caixa, que ainda está parecendo nova, depois de tanto tempo.

É meu desejo realizado. Um desejo que permaneceu sem mágoas pela não realização na infância, mas que ficou lá, quietinho.

E agora, realizado.

o desejo
o desejo

Desejem sempre. E acreditem que um dia, tudo pode se realizar, mais cedo ou mais tarde.

Meu sonho demorou quase 40 anos prá se realizar. Mas agora existe. Tá aqui comigo, na minha gavetinha.

Bem do meu lado.

Sempre.