O Perdão

Li estas cartas num artigo intitulado Cartas do Inferno, que trata de correspondências trocadas entre militares e suas famílias durante a Primeira Guerra Mundial. O artigo completo se encontra na revista Grandes Guerras (Aventuras na História) edição 25 de outubro 2008.

E por ser uma das coisas mais lindas que já li, a transcrevo para vocês. Embora o texto seja um pouquinho longo, valerá a pena lê-lo. Tenho absoluta certeza.

 

Remetente piloto inglês

Destinatária alemã desconhecida

Data 1918

Piloto inglês angustiado escreve para a mãe do piloto alemão que ele matou em combate

É seu filho. Sei que a senhora não pode me perdoar por tê-lo matado. Mas quero que a senhora saiba que ele não sofreu. O fim veio rápido. Ele era muito corajoso. Deve ter sido muito bom. Levava sua foto no bolso. Eu a estou enviando de volta, ainda que quisesse guardá-la.

Suponho que eu seja inimigo dele, ainda que não tenha pensado nele ou na senhora quando atirei em seu avião. Ele era um inimigo espião para nossos homens. Não podia permitir que ele voasse de volta para sua base com informações sobre nós. Isso significaria a morte para nossos homens.

Foi uma manobra inteligente. Estávamos camuflados e ele precisou voar muito baixo para conseguir nos ver, e o fez bravamente. Ele quase escapou de mim. Pilotava magnificamente. Pensei sobre como gostaria de voar como ele. Mas ele era inimigo e precisava ser destruído. Eu atirei. Tudo acabou em um segundo. Apenas um tiro na cabine, e o avião chocou-se contra o chão. No rosto dele, não havia sofrimento, apenas excitação. Seus olhos eram brilhantes e sem medo.

Sei que a senhora deve tê-lo amado. Minha mãe morreu quando eu era pequeno. Mas sei o que ela sentiria, se eu tivesse morrido. As guerras não são justas para as mulheres. Deus! Como eu queria que a guerra tivesse acabado. Ela é um pesadelo.

Sinto que, se eu pudesse tocar o corpo dele, ele simplesmente despertaria e poderíamos ser amigos. Sei que o corpo dele deve ser muito importante para a senhora. Vou cuidar dele e sinalizarei seu túmulo com uma cruz. Depois da guerra a senhora pode desejar levá-lo para seu país.

Pela primeira vez, estou quase feliz por minha mãe não estar viva. Ela não teria suportado o que fiz. Meu coração está pesado. Sinto que era minha missão. Ainda assim, agora que vejo seu filho sem vida diante de mim e tenho a foto da senhora em minhas mãos, tdo parece muito errado. O mundo é sombrio. Oh, mãe, seja minha mãe apenas por um instante e diga-me o que fazer.

Hugh

Resposta

Remetente alemã desconhecida

Destinatário piloto inglês

Data 1918

A mãe do piloto alemão responde ao aviador inglês que matou seu filho

Caro rapaz,

Não há o que perdoar. Veja como você está – sua bondade dilacerada. Sinto-o vindo a mim como um garotinho assustado por ter feito mal quando tinha intenção de fazer o bem. Você parece meu filho. Fico feliz em saber que suas mãos cuidaram dele. Prefiro que você a qualquer outra pessoa tenha tocado seu corpo estendido. Ele era meu filho caçula. Acredito que você tenha visto a delicadeza dele.

Sei que seu coração está atormentado desde que você o alvejou. Para as mulheres, a irmandade é uma realidade. Pois todos os homens são nossos filhos. A guerra é uma situação monstruosa, que leva um irmão a matar o outro. Ainda assim, acredito que as mulheres tenham mais responsabilidade por essa guerra mundial que os homens. Não pensamos nos filhos do mundo, em nossos filhos. A mãozinha do bebê que tocou nosso seio era tão doce que esquecemos as centenas de mãos de outros bebês que se estendem para nós. Mas a Terra não esquece, ela é a mãe de todos.

E agora meu coração sofre muito. Espero um dia tomar você em meus braços e deitar sua cabeça sobre meu seio para fazê-lo sentir em mim toda sua afinidade com a Terra. Ajude-me, meu filho, eu preciso de você. Que sua visão seja minha visão. Espalhe seu sonho de unidade e de amor por toda a terra. Quando esta guerra acabar, venha até mim.

Eu o estou esperando.

Sua mãe.

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