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Um carro e uma cadeira de rodas

Acessibilidade. Parece que o mundo acordou, finalmente, para uma grande injustiça. Ou, por outra, muitas pessoas estão finalmente tentando fazer alguma coisa.

Falo daquelas situações pelas quais passam as pessoas que necessitam se locomover numa cadeira de rodas. As pessoas hoje chamadas de cadeirantes.

Algumas nasceram com alguma limitação que as obrigam a se utilizar das cadeiras, outras, por razões diversas, passaram a utilizá-las depois de tempos de vida.

Mas o que me levou a escrever este post, é uma propaganda que tem sido veiculada na televisão sobre uma situação infeliz que acontece comumente. Nesta propaganda, uma garota em cadeira de rodas passa a maior dificuldade para  acessar uma calçada, pois o local pelo qual ela poderia facilmente subir (a rampa) está bloqueada por um carro, parado por um homem, muito bem trajado e teóricamente (bem se ve) bem educado.

Esta é uma situação real. Tenho visto isto continuamente. Acho o fim da picada.

Inclusive, há poucos dias, infelizmente, vi um carro oficial, de um setor de segurança, num shopping, parado exatamente onde? na vaga para cadeirantes. Neste dia, o estacionamento não estava cheio, é verdade, mas a vaga especial não é qualquer uma. Se a vaga é aquela, é porque aquele local vai facilitar o acesso ao estabelecimento. Se não fosse assim, as vagas para cadeirantes poderiam estar em qualquer lugar do estacionamento. Mas não é assim. Estas vagas sempre estão próximas à porta. Isto não é à toa.

Foi um pouco decepcionante. Mas o motorista, alertado, logo foi retirar o veículo do local. Pelo menos isso.

Se cada um de nós fizer o pouquinho que nos cabe, o coletivo todo irá ser beneficiado.

Eu procuro fazer a minha parte, com todo empenho. E sei que você, que me lê, também.

Então, obrigada, em nome de quem, neste momento, não pode lhe agradecer.

Coragem e dignidade

Hoje pela manhã, estávamos, meu marido e eu, assistindo ao noticiário. Naturalmente que uma das notícias dizia respeito àquele famosíssimo médico especialista em reprodução humana que se encontra preso sob suspeita/acusação de assédio sexual, estupros, manipulação genética e outros crimes praticados contra clientes que procuraram sua ajuda na clinica de reprodução humana de sua propriedade.

Mas o que quero falar não é a respeito deste monstro, não. Quero falar exatamente das pessoas que foram enganadas e/ou abusadas por este verme.

Meu marido e eu comentávamos sobre a coragem que tiveram estas pessoas que vieram a público, se expuseram, falaram e hoje tem sua revolta ouvida.

Pelo que tem aparecido na mídia, estes casos tem acontecido desde muito tempo atrás. É estranho que,já tendo havido outras denúncias, somente agora as coisas comecem a ser esclarecidas, não é?

Mas novamente, o que me levou a falar aqui, foi uma frase que meu marido falou: “Eu queria ter o dom da escrita, prá mandar uma mensagem prá estas mulheres e homens que tiveram suas vidas manipuladas e abusadas. Queria saber agradecer a eles o que fizeram, dando sua cara a tapa, falando. É muita coragem, neste país, mulheres mostrarem o rosto num caso tão absurdo e doloroso, e também os homens, maridos destas mulheres, que, se ainda estão com elas, acreditaram nelas, lhes apoiaram. E com certeza estão sofrendo junto com elas esta dor.Parabéns e obrigado a eles.”

Meu marido queria ter escrito isto, e como concordo plenamente com ele, falei que não se preocupasse, que eu, com minha voz fraca e pequena, faria isto por ele. Que hoje ainda eu tentaria gritar a todos a beleza da coragem e da dignidade destas pessoas que estão se expondo, e das que já se expuseram, e que talvez nem tenhamos ficado sabendo.

Não gosto de fazer posts em homenagem a pessoas que já faleceram. Gosto de homenagens quando as pessoas ainda estão vivas, prá que possam saber o quanto são queridas e admiradas.

Este meu post é justamente prá estas mulheres e homens que tiveram a coragem de falar, porque, com este ato, quantas outras mulheres terão sido salvas das humilhações? Quantas famílias deixarão de ser desfeitas pela dúvida, pelo que as mulheres poderiam falar? Quantos pais deixarão de olhar pros seus filhos com dúvida?

Gostaria que, embora este médico/monstro tenha muito dinheiro prá gastar com advogados, a justiça seja levada a sério. E seja feita em sua plenitude.

Mas, mais que qualquer coisa gostaria, hoje,de dar parabéns a vocês, mulheres corajosas e dignas, que com seu gesto, ajudaram a salvar muitas outras.

Parabéns.

Aquelas duas fotocópias

Estava conversando com meu marido sobre pequenos gestos e me lembrei de uma situação que passei há uns quatro ou cinco anos, lá na papelaria.

Naquele dia, o primeiro cliente que entrou na loja foi um rapaz. Talvez uns 25, 26 anos. Após desejar-lhe um bom dia, ele retribuiu meu cumprimento e perguntou, com um olhar muito, mas muito suplicante mesmo, se eu tiraria 2 fotocópias da certidão de nascimento de suas filhas. É que ele tinha conseguido um trabalho. Deveria começar naquele dia. Mas precisava da certidão das meninas prá apresentar ao novo empregador. E ele me explicou que, se não apresentasse as certidões, ele não poderia trabalhar, porém, se pagasse pelas cópias, as meninas não comeriam pão naquele dia. (e me pareceu que aquele seria o único alimento do dia prá elas).

Sinceramente, ele não precisaria ter me justificado nada. Só pela forma como me pediu as cópias, eu já as tiraria sem cobrar. Mas ele fez questão de explicar, e me disse: “moça, quando receber meu primeiro salário, passo aqui prá lhe pagar, faço questão”.

Naturalmente fiz as cópias, ele me agradeceu muito e saiu. Passou o dia, a semana, o mês.

Eu nem me lembrava mais do fato, e eis que entra na loja um rapaz com um olhar feliz. Sabe quando você acha que conhece a pessoa, mas não sabe de onde? Foi isso que senti. Aí ele falou: “Lembra de mim? A senhora fez 2 fotocópias da certidão de nascimento de minhas filhas, há um mes. Hoje recebi o pagamento, vim pagar. E me entregou uma moeda de R$ 0,25”. (na época, a cópia era R$ 0,10, cada).

Sabe quando você perde o chão? Ele voltou prá me pagar 20 centavos. E não queria o troco. Embora eu tentasse convencê-lo do contrário, ele pagou. E mais, no dia seguinte, foi levar-me um vasinho com uma plantinha que sua esposa tinha preparado especialmente prá mim.

Foi uma emoção tão grande, que a sinto até hoje.

Vez por outra o rapaz passa na frente da loja e quando me vê, entra e conversa um pouquinho. Me fala sobre as meninas, sobre a esposa, me fala da casinha que está construindo.

E me agradece sempre pelas duas fotocópias.

R$ 0,20 que mudaram e, talvez, salvaram quatro vidas.

Simples assim.

R$ 0,20.

Começou a gincana novamente

No colégio dos meus filhos menores, todo ano eles realizam uma gincana.

A gincana é muito legal. Na verdade são duas. Uma para os alunos até a quarta série, e outra para os maiores. Meus filhos já estão nesta segunda. Mas desde pequenos participam.

A gincana dos pequeninhos é muito interessante. São jogos, brincadeiras, mas sem esquecer o aspecto educacional e de fazer o bem. Desde pequenos eles aprendem que, além de se divertir, podem estar ajudando pessoas que não tiveram oportunidades como as que eles tem. E é muito legal ver o empenho das crianças.

E a gincana dos grandes, então? É muito bom participar. Aqui em casa a gente se envolve mesmo. Talvez por serem dois participando, a empolgação seja maior.

Como eu sou meio metida (só meio? perguntariam meus filhos), não vou ao colégio, participo nos bastidores, fazendo bandeiras, enfeites, indo atrás das doações, dando idéias. Se eu for até a escola, acabo mandando em tudo, o que é absolutamente desaconselhável, visto que um dos objetivos é a interação entre os alunos.

Como já falei anteriormente, tal qual na gincana dos pequenos, nesta também, além dos testes de conhecimento, agilidade física, estratégia e outros, há um aspecto muito bonito. Todos os anos, são arrecadados muitos, mas muitos quilos mesmo de alimentos. Até um tempo atrás também havia o recolhimento de roupas. Ano passado não teve, mas em compensação o que os alunos conseguiram de alimentos e cobertores foi uma coisa absurda.

Mas, naturalmente, por se tratar de um colégio particular, sempre há aqueles que deturpam tudo.

Já falei que tenho uma papelariazinha. Pois bem, há uns anos atrás, no dia da carreata que encerrava a gincana, uma das equipes teve seu ponto de reunião exatamente na frente de minha loja. (não era a equipe dos meus filhos). Estava tudo muito bonito, tudo que caía no chão, os garotos recolhiam. Até porque isto fazia parte da prova. Não poderia haver resto de sujeira na via publica.

Pois bem, entra uma madame na loja, faz o pedido do que queria comprar, e começa a soltar o verbo contra a escola. contra os garotos, contra tudo.

Coisas tipo “eu conheço escola particular, as doações vão todas prá eles mesmos, a comida eles ficam prá eles, a sujeira depois pagam alguém prá limpar, e olha o som” (ótimo, diga-se de passagem) e outrasbesteiras do tipo.

Foi quando entrou um dos alunos e me pediu alguma coisa, não lembro o que, e a mulher exigiu, isto mesmo, exigiu que eu mandasse o garoto se retirar. Não deu de aguentar, não. Afinal, mandando o garoto se retirar da minha loja, seria quase como mandar meu filho embora. Afinal, mesmo que em outro ponto da rua, ele também estava participando. Nesta hora, a baiana rodou. A pessoa ouviu o que quis e o que não quis. Falei da grandeza da ajuda. Falei de quantas famílias na cidade seriam beneficiadas. Falei que o que ela dizia era mentira, pois varias vezes eu estava no colégio quando as cestas básicas e as roupas eram distribuidas.

Eu sempre vi agradecimento nos olhos das pessoas que recebem as doações. Tudo é feito de forma organizada. Há um cadastramento das famílias, a distribuição é com muita ordem, sem atropelos.

Eu participo, e minha família também. Meus filhos pedem doações aos avós, aos tios, a amigos.

É por uma excelente causa. Por eles mesmos e pelos outros.

Eles, por se aproximarem mais dos colegas e os outros por poderem receber um pouco de carinho e atenção.

São entusiasta desta gincana. E mesmo quando meus filhos já não estiverem mais estudando no colégio, vou tentar continuar participando.

Participem também, se puderem. Ou pelo menos torçam para que a gincana continue o sucesso que tem sido.

E que a equipe dos meus filhos ganhe de novo. ( só prá variar um pouquinho, eheheheh).

Quando alguém nos pede atenção

Tenho observado muito, nestes últimos anos, e principalmente depois que assumi um balcão de loja, o quanto as pessoas andam carentes de atenção. E por atenção falo até simplesmente um oi, um bom dia, boa tarde ou boa noite.
 
Às vezes um sorriso, simplesmente, faz toda a diferença.
 
Parece que ultimamente, todos estamos com pressa, todos, inclusive as crianças. Elas andam estressadas, sempre correndo. Mas não aquela corrida afoita própria das crianças, que andam sempre como que querendo abraçar o mundo em um segundo. Falo daquela pressa sem um porque, sem uma razão. Simplesmente estão com pressa.

Às vezes, me detenho e vou perguntando, um a um, o por que de tanta corrida. E poucos, muito poucos realmente tem um motivo. Algumas vezes as próprias pessoas se tocam disto. É, não sei… é uma resposta bastante comum.

E é muitas vezes nesta conversa engatada à toa, que o papo rola solto, e passo a conhecer mais as pessoas. E elas a mim. Várias vezes já ouvi : “achei que a sra era braba”, e outras cositas mais, e hoje, estas mesmas pessoas não deixam de dar um oi gostoso quando passam em frente à loja. Muitas vezes nem chegam a entrar, mas elas sabem que podem contar comigo prá bater um papo, se quiserem.

Claro, é logico, que algumas vezes também não estou prá conversa, mas é difícil resistir a uma criança perguntando se está tudo bem. Eu desmonto. E sorrio.

Até porque, depois de um sorriso, parece que os nossos músculos faciais não aceitam mais a cara amarrada. É sorrir uma vez, e pronto. Nosso dia está ganho.

Mais leve, mais fácil. Mais colorido.
 
Mais feliz.

Pessoas que se queixam da vida

Uma frase do Jô Soares me chamou a atenção. “As pessoas que se queixam da vida, o que dirão da morte?”

Eu fico impressionada como, todo santo dia, entra alguém na minha lojinha reclamando da vida.

Pessoas com uma família legal, morando numa casa boa, situação amorosa definida, conta no banco recheadinha, e reclamando.

Conheço pessoas que estão em situação beirando o desespero, e nem por isto estão reclamando da vida. Pessoas com os filhos doentes ou doentes elas próprias,  sem perspectiva de cura, já tendo que ter vendido os poucos bens que ainda possuíam para pagar tratamentos, sem casa própria prá morar, a esta altura já sem crédito no comércio, e mesmo assim elas permanecem otimistas e pensando no futuro.

Por que para alguns estas adversidades são verdadeiros tônicos e para outros um espirro ou um sapato desejado que não serviu são como uma declaração de morte?

Aí, entra a frase do Jô Soares.

O que estas pessoas prá quem nada parece satisfazer pensam quando passam por uma situação que realmente não tem volta, como a morte? Porque um dia algum ente querido dela vai se mudar da Terra. E o que elas pensam quando se deparam com a possibilidade de sua própria morte? Será que este pessoal não pensa que um dia vai morrer, queira ou não? Ou será que, para uma pessoa que só vê o mundo que acontece ao redor de seu próprio umbiguinho, ela nasceu para a eternidade?

Talvez por isto, esta crise de tédio.

Como, com certeza, estas pessoas serão eternas (é o que elas pensam), dá um cansaço pensar no tudo que terão que fazer pela eternidade afora. Então já ficam reclamando a partir  de agora, talvez prá ganhar tempo.

O Perdão

Li estas cartas num artigo intitulado Cartas do Inferno, que trata de correspondências trocadas entre militares e suas famílias durante a Primeira Guerra Mundial. O artigo completo se encontra na revista Grandes Guerras (Aventuras na História) edição 25 de outubro 2008.

E por ser uma das coisas mais lindas que já li, a transcrevo para vocês. Embora o texto seja um pouquinho longo, valerá a pena lê-lo. Tenho absoluta certeza.

 

Remetente piloto inglês

Destinatária alemã desconhecida

Data 1918

Piloto inglês angustiado escreve para a mãe do piloto alemão que ele matou em combate

É seu filho. Sei que a senhora não pode me perdoar por tê-lo matado. Mas quero que a senhora saiba que ele não sofreu. O fim veio rápido. Ele era muito corajoso. Deve ter sido muito bom. Levava sua foto no bolso. Eu a estou enviando de volta, ainda que quisesse guardá-la.

Suponho que eu seja inimigo dele, ainda que não tenha pensado nele ou na senhora quando atirei em seu avião. Ele era um inimigo espião para nossos homens. Não podia permitir que ele voasse de volta para sua base com informações sobre nós. Isso significaria a morte para nossos homens.

Foi uma manobra inteligente. Estávamos camuflados e ele precisou voar muito baixo para conseguir nos ver, e o fez bravamente. Ele quase escapou de mim. Pilotava magnificamente. Pensei sobre como gostaria de voar como ele. Mas ele era inimigo e precisava ser destruído. Eu atirei. Tudo acabou em um segundo. Apenas um tiro na cabine, e o avião chocou-se contra o chão. No rosto dele, não havia sofrimento, apenas excitação. Seus olhos eram brilhantes e sem medo.

Sei que a senhora deve tê-lo amado. Minha mãe morreu quando eu era pequeno. Mas sei o que ela sentiria, se eu tivesse morrido. As guerras não são justas para as mulheres. Deus! Como eu queria que a guerra tivesse acabado. Ela é um pesadelo.

Sinto que, se eu pudesse tocar o corpo dele, ele simplesmente despertaria e poderíamos ser amigos. Sei que o corpo dele deve ser muito importante para a senhora. Vou cuidar dele e sinalizarei seu túmulo com uma cruz. Depois da guerra a senhora pode desejar levá-lo para seu país.

Pela primeira vez, estou quase feliz por minha mãe não estar viva. Ela não teria suportado o que fiz. Meu coração está pesado. Sinto que era minha missão. Ainda assim, agora que vejo seu filho sem vida diante de mim e tenho a foto da senhora em minhas mãos, tdo parece muito errado. O mundo é sombrio. Oh, mãe, seja minha mãe apenas por um instante e diga-me o que fazer.

Hugh

Resposta

Remetente alemã desconhecida

Destinatário piloto inglês

Data 1918

A mãe do piloto alemão responde ao aviador inglês que matou seu filho

Caro rapaz,

Não há o que perdoar. Veja como você está – sua bondade dilacerada. Sinto-o vindo a mim como um garotinho assustado por ter feito mal quando tinha intenção de fazer o bem. Você parece meu filho. Fico feliz em saber que suas mãos cuidaram dele. Prefiro que você a qualquer outra pessoa tenha tocado seu corpo estendido. Ele era meu filho caçula. Acredito que você tenha visto a delicadeza dele.

Sei que seu coração está atormentado desde que você o alvejou. Para as mulheres, a irmandade é uma realidade. Pois todos os homens são nossos filhos. A guerra é uma situação monstruosa, que leva um irmão a matar o outro. Ainda assim, acredito que as mulheres tenham mais responsabilidade por essa guerra mundial que os homens. Não pensamos nos filhos do mundo, em nossos filhos. A mãozinha do bebê que tocou nosso seio era tão doce que esquecemos as centenas de mãos de outros bebês que se estendem para nós. Mas a Terra não esquece, ela é a mãe de todos.

E agora meu coração sofre muito. Espero um dia tomar você em meus braços e deitar sua cabeça sobre meu seio para fazê-lo sentir em mim toda sua afinidade com a Terra. Ajude-me, meu filho, eu preciso de você. Que sua visão seja minha visão. Espalhe seu sonho de unidade e de amor por toda a terra. Quando esta guerra acabar, venha até mim.

Eu o estou esperando.

Sua mãe.