Cartas que não recebi

Durante uma boa parte da minha vida, precisei me mudar de cidade a cada tres anos, em média. Muitas vezes, estas mudanças aconteciam até mesmo com menos de dois anos. Por força da profissão.

Não reclamo por isto. Foi um período muito bom. Conheci o Brasil. Aquele Brasil que o brasileiro não conhece. Interior brabo, aquele interior sem estradas. Aquele fim de mundo em que o povo divide o pouquíssimo que tem. Mas este Brasil é assunto prá outro dia.

Hoje, o que vem ao caso são as cartas que não recebi.

As que não recebi pelo correio.

Sou do tempo da jovem guarda, como já sabem. E naquele tempo havia uma música que falava de um carteiro chegando com uma carta prá alguém.

E como toda menina que transpira romantismo por todos os poros, fantasiei muito com uma carta chegando pelo correio.

Primeiro, uma carta de amor, com envelope bonito, letra bem legível, palavras bem escritas.

Recebi, é verdade, um telegrama de meu marido, muito romântico. Mas não era uma carta.

Mas o tempo foi passando, e nada da minha carta de amor chegar. Então mudei o foco.

Fui morar muito longe, e durante o tempo em que minha filha não pode ir morar conosco por absoluta falta de lugar prá morar, ela me escrevia. Mas as cartas sempre chegavam dentro de pacotes com fotos, frutas, presentes que me mandavam. Uma reles cartinha vinda pelo correio?

Nenhuma. Em nenhum momento.

Até hoje. Nunca recebi uma carta pelo correio.

E agora, com a internet, será que ainda tenho chance?

Porque atualmente, nem aquelas fotos tão aguardadas antigamente, aquelas do netinho que acabou de nascer e que a gente fotografava todo desfocado, mandava fazer 250 cópias prá mandar prá família, fotos daquela pequena maravilha com carinha de joelho, nem isto a gente manda mais. Basta acessar a internet, baixar as fotos da máquina ou do celular, dá um clic, e eis que vovó, vovô, titios, primos, o amigo do vizinho do tio do colega de trabalho, todos, a um mesmo tempo, veem aquela foto sem tremor nenhum, com o pequeno ser absolutamente perfeito,às vezes até às custas de pequenos retoques no photo shop.

Gosto de comunicação, mas agora tá ficando sem glamour.

As coisas acontecem, e a gente sabe tudo na hora. E eu acho que tem coisas que precisariam de um certo suspense. Mas enfim…

Acho que é por isto, que na Europa, principalmente, está voltando a cultura do cartão postal.(embora lá, a bem da verdade, eles nunca tenham esquecido completamente este mimo).

Ao receber um cartão postal, você sabe que a pessoa, no mínimo, teve que parar prá comprar um, teve que escrever, nem que tenha sido prá colocar só seu nome e endereço, teve que comprar selo e postar. A isto chamo de carinho. Realmente a pessoa lembrou de você. Você não foi somente mais um na sua lista de e-mails. Tudo com o mesmo texto.

Assim as minhas cartas.

Tomara que alguém também compartilhe desta saudade comigo.

É, saudade. Das cartas escritas com todo carinho (como as que eu escrevia), das cartas perfumadas (mesmo que seja aquele indefectível cheiro de papel perfumado), daquelas palavras lindas e bem escolhidas.

Vou continuar sentindo saudades.

Sim.

De todas as cartas que não recebi.

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