A turma da noite

Como minha lojinha se localiza em frente a uma escola estadual, e por vendermos produtos de papelaria, o tempo todo tem crianças e adolescentes entrando.

Embora eu vá pouco no período da manhã, pois é este o tempo de que disponho prá tentar colocar a casa em ordem e fazer a parte administrativa da loja, como planejar e fazer as compras de produtos e preparar pagamentos, conheço muitas crianças. Eu me divirto com as tiradas delas. Acho que posso dizer que a gente brinca bastante.

A turma da tarde eu atendo durante o horário da saída, e já são, em sua maioria, crianças maiores, quase entrando na puberdade, e adolescentes também. Estes dão um pouco mais de trabalho. São práticamente todos meio atabalhoados, querem ser atendidos ao mesmo tempo, estão sempre, eternamente com pressa. Não descobri até hoje prá que. Mas me entendo bem com eles também. É só fingir que vou dar uns berros, mandar que façam fila, e a paz retorna rapidinho. Afinal ninguém quer ficar sem as guloseimas vendidas pela tia.

E a turma da noite. Esta é a minha paixão. São adolescentes, e outros não tão novos assim, que eu atendo diáriamente.

A maioria trabalha durante o dia e estuda à noite. Alguns chegam à escola visivelmente cansados. Mas passam antes na loja.

De muitas meninas já me tornei uma espécie de confidente, digamos assim. Elas me falam as coisas, eu guardo o segredo, (até meu marido, que fica comigo na loja, se afasta, quando elas começam a conversar, porque pelo tom de voz já dá de saber se é segredo) não falo mesmo prá ninguém, mesmo quando outras meninas vem querendo saber o que a primeira tinha falado. Acho que por isto elas confiam em mim. Ou será por que ajudo a ver se o menino de jaqueta preta e boné azul já está em frente à escola? E a garota não pode vê-lo, porque vai dar bandeira que está a fim dele? Tanto faz. O que me importa é que de uma forma ou de outra, dá de seguir ajudando e às vezes até orientando.

Como quando teve a campanha da vacina contra a rubéola, e uma menina disse que tinha medo da injeção. Pude fazer ver a ela que as consequências futuras da rubéola no seu futuro filho seriam tão devastadoras, que a dor de uma picadinha de agulha não seria nada comparada à dor que ela sofreria por saber que poderia ter evitado tanto sofrimento. No dia seguinte ao papo ela veio toda orgulhosa dizer que tinha tomado a vacina e que nem tinha desmaiado. Muito legal.

Po isto, quando chega o fim do ano, é fatal. Eu choro. E é claro que eles riem de mim. Principalmente a turma do terceiro ano, a quem sempre, não sei porque, me apego mais. E é exatamente esta turma a que não vai voltar em bandos. E eu sinto muita saudade deles. Ainda bem que muitos de vez em quando voltam prá um oi. Porque a maioria mora bem longe da escola, então vir até mim é meio fora de mão.

Mas todos sabem que, a hora que quiserem, enquanto eu estiver por ali, vou estar à disposição deles.

Desta turma esforçada, que trabalha oito horas (ou até mais) durante o dia, e à noite ainda vai prá escola estudar.

Parabéns prá eles.

 

 

 

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